DECLARAÇÕES SOBRE APROPRIAÇÃO
Michalis Pichler

1. Se um livro parafraseia explicitamente um predecessor histórico ou contemporâneo no título, no estilo e/ou no conteúdo, esta técnica é o que eu chamo de um "greatest hit".

2. Talvez a crença de que uma apropriação sempre é uma decisão estratégica consciente, feita por um autor, é tão ingênua quanto acreditar que existe um autor "original".

3. A assinatura do autor, seja um artista, cineasta ou poeta, parece o início de um sistema de mentiras, que todos os poetas, todos os artistas tentam estabelecer para se defender, não sei exatamente contra o quê.

4. Como a tradição deu aos nossos antepassados pré-cristãos o nome de "os antigos", não somos nós que iremos contra isso dizendo que, diante de nós, gente experimentada, eles deveriam mais propriamente ser apelidados de crianças, mas preferimos, como até aqui, continuar a honrá-los como nossos respeitáveis pais.

5. Não é nada além de literatura!

6. existe tanta originalidade imprevisível em citar, imitar, transpor e ecoar, quanto em inventar.

7. Para os senhores críticos de arte devo acrescentar que, com certeza é preciso muito mais maestria para fazer uma obra de arte a partir de uma natureza artística informe, do que para construir a partir de um material arbitrário segundo as próprias leis artísticas.

8. O que caracteriza a autenticidade de uma coisa é tudo aquilo que ela contém e é originalmente transmissível, desde sua duração material até o seu poder de testemunho histórico.

9. A Propriedade Intelectual é o petróleo do século 21.

10. Certas imagens, objetos, sons, textos ou pensamentos poderiam estar dentro da área do que é apropriação, se fossem mais explícitos, ou mais estratégicos, ou mesmo se consentissem em emprestar, roubar, apropriar, herdar, assimilar... ser influenciado, inspirado, dependente, endividado, assombrado, possuído, citando, reescrevendo, retrabalhando, remodelando... a revisão, reavaliação, variação, versão, interpretação, imitação, aproximação, suplemento, incremento, improvisação, prequela... pastiche, paráfrase, paródia, pirataria, homenagem, mimetismo, travesti, shanzhai, eco, alusão, intertextualidade e karaokê.

11. O plágio é necessário, o progresso implica nisso.

12. Basicamente, qualquer signo ou palavra é suscetível de ser convertido em outra coisa, até em seu oposto.

13. Como Bouvard e Pécuchet, esses eternos copistas, ao mesmo tempo sublimes e cômicos, e cujo profundo ridículo designa precisamente a verdade da escrita. O escritor não pode deixar de imitar um gesto sempre anterior, nunca original.

14. O mundo está cheio de objetos, mais ou menos interessantes; não desejo adicionar- lhe mais nenhum.

15.

16. A questão é: o que vemos agora, que nunca mais será visto?

17. Apropriação indébita subverte as conclusões críticas passadas que foram petrificadas em verdades respeitáveis, isto é, transformadas em mentiras.

18 Nenhum poeta sozinho, nenhum artista sozinho, tem a sua significação completa.

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No dia 11 de dezembro de 2009, seis declarações criadas pelo "artista/autor" propostas para este trabalho, foram misturadas em um recipiente com dezoito declarações retiradas de várias outras bfontes; cada uma delas foi impressa em um pedaço de papel separado. Foram escolhidas dezoito declarações por uma seleção "cega" e, na exata ordem de seleção, agrupadas, formando as DECLARAÇÕES SOBRE APROPRIAÇÃO, que foi apresentada em Stichting Perdu, em Amsterdã. Na bibliografia abaixo as fontes(...) podem ser encontradas, embora nenhuma declaração específifi ca esteja atribuída ao seu efetivo autor.

 

Roland Barthes. "Death of the Author". In: Image-Music-Text New York: Hill and Wang, 1978, p. 142-148. No Brasil contamos com a tradução de MárioLarangeira, "A Morte do Autor". In: O Rumor da Língua São Paulo: Martins Fontes, 2012, p. 57-64.

Walter Benjamin. "Unpacking my Library". In: Illuminations Ed. Hannah Arendt, trad. Harry Zohn. New York: Schocken, 1968, p. 59-67. No Brasil contamoscom a tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho e José Carlos Martins Barbosa, Desempacotando Minha Biblioteca. In: bras escolhidas . II - Rua de Mão Única.São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 227-235.

Walter Benjamin. "The Work of Art in the Age of Mechanical Reproduction". n: Illuminations. Ed. Hannah Arendt, trans. Harry Zohn. New York: Schocken, 1968, p. 215-217. No Brasil contamos com a tradução de Sergio Paulo Rouanet, A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. n: bras escolhidas V. I - Magia e Técnica, Arte e Política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 165-196.

Marcel Broodthaers. "Interview with Marcel Broodthaers" by Freddy de Vree. In: Collected Writings. Ed. Gloria Moure, trans. Jill Ramsey. Barcelona: EdicionesPolígrafa, 2012, p. 310-312.

Ulises Carrión. "The New Art of Making Books". In: lises Carrión – We have won! Haven’t we?. Ed. Guy Schraenen. Amsterdam: Idea Books. n.p. No Brasilcontamos com a tradução de Amir Brito Cadôr, A Nota Arte de Fazer Livro . Belo Horizonte: C/Arte, 2011.

Giorgio de Chirico, quote in Allen Ruppersberg, The New Five-Foot Shelf of Books. Ljubljana: International Centre of Graphic Arts, Bruxelles: Editions MichelineSzwajcer e Michèle Didier, 2003. n.p.

Guy Debord. The Society of the Spectacle. Trad. Ken Knabb. http://wwwbopsecrets.org/SI/debord/8.htm, paragraph 206. No Brasil contamos com a tradução de Estela dos Santos Abreu, A sociedade do espetáculo Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

Guy Debord, Gil J. Wolman. "A User’s Guide to Détournement". In: Situationist International Anthology Trans. and Ed. Ken Knabb. Bureau of Public Secrets,2006. http://www.bopsecrets.org/Sl/detourn.htm

Isidore Ducasse. "Comte de Lautrèamont". In: Poésies and Complete Miscellanea. Trans. Alexis Lykiard. London: Alison & Busby, 1978, p. 68. No Brasilcontamos com a tradução de Cláudio Willer, s Cantos de Maldoror: Cartas e Poesias. São Paulo: Iluminuras, 2015.

T. S. Eliot. "Tradition and the Individual Talent". In: Selected Prose of T. S. Eliot. Ed. Frank Kermode. London: Faber, 1984, p. 37. No Brasil contamos com atradução de Ivan Junqueira, Tradição e talento individual. In: São Paulo: Art Editora, 1989.

Mark Getty, quote in "Blood and oil". In: e Economist, March 2, 2000.

Kenneth Goldsmith. "Being Boring". In: The Newpaper 2, 2008, 2. http:// thenewpaper.co.uk

Herakleitos, Ephesos citado por Platão. In: Cratylus, fragmento 41. No Brasil contamos com a tradução de Carlos Alberto Nunes, Platão. Teeteto Crátil . Belém:Universidade Federal do Pará, 2001.

Julia Kristeva. "Word, Dialogue and Novel". In: e Kristeva Reader Ed. Toril Moi. New York: Columbia University Press, 1986.

Daniel McClean e Karsten Schubert. Dear Images: Art, Copyright, and ulture. London: Ridinghouse, 2002, p. 372.

Allen Ruppersberg. "Fihy Helpful hints on the Art of the Everyday". In: The Secret of Life and Death. Los Angeles: The Museum of Contemporary Art, 1985, p.113.

Kurt Schwitters. "i (ein Manifest)". In: Das literarische Werk Ed. Friedhelm Lach, Vol. 5. Cologne: Du¬Mont, 1981, p. 125.

Leo Steinberg, quote in Hillel Schwartz, The Culture of the copy. Striking Likenesses, Unreasonable Facsimilies. New York: Zone Books, 1996.

Max Stirner. The Ego and Its Own. Ed. David Leopold. Trad. Steven Byington. Cambridge: Cambridge University Press, 1995, p. 19. No Brasil contamos com atradução de João Barrento, O único e sua propriedade São Paulo: Martins, 2009.

Ver também

Douglas Huebler, Variable piece #20 In: Douglas Huebler. Andover, Massachussetts: Addison Gallery of American Art, 1970.

1Tradução para o português da versão bilíngue inglês/italiano publicada como cartaz para Exposition littéraire autor de Mallarmé no Kunstverein Milano. Kunstverein Publishing e Greatest hits, 2016. http://www.kunstverein.it/en/publications/statements-on-appropriation Uma primeira versão deste trabalho foi publicada na Revista Fillip 11,Vancouver: 2010

2Michalis Pichler é artista, vive e trabalha em Berlim. Em 2008 fundou a "greatest hits", uma plataforma artística e editorial que publica trabalhos cuja característica é seremtodos oriundos de apropriações.

Pichler, Michalis, "DECLARAÇÕES SOBRE APROPRIAÇÃO," in ¿Hay en Portugués? número 7, ed. Melim (, 2016).

2. Talvez a crença de que uma apropriação sempre é uma decisão estratégica consciente, feita por um autor, é tão ingênua quanto acreditar que existe um autor "original".

3. A assinatura do autor, seja um artista, cineasta ou poeta, parece o início de um sistema de mentiras, que todos os poetas, todos os artistas tentam estabelecer para se defender, não sei exatamente contra o quê." data-share-imageurl="" style="position:fixed;bottom:0px;right:0px;">